Parabéns, Jorge!
Obá de Xangô
“Eu acho que o
escritor verdadeiro é aquele que escreve sobre o que ele viveu” afirmava Jorge
Leal Amado Faria.
O espírito criador do itabunense desconhecia
fronteiras, transitava entre línguas e fazia questão de flertar com tabus.
Sua famigerada carreira inicia com a tiragem
de modestos mil exemplares do romance “País do Carnaval”, ocasião que irá
desembocar em outros tantos títulos e traduções para diversos idiomas, içando o
escritor ao cargo de guia oficial das ladeiras, ruas e causos baianos.
Possuidor de um olhar pitoresco diante das
dicotomias da vida, não se fez de rogado e embutiu nas palavras uma roupagem distinta
ao que havia sido testemunhado até então. Somado a isso, o dom fabulador
assinou a carta de alforria para o povo, com todo seu sincretismo cultural e
religioso, tornando-o protagonista e não somente mero coadjuvante da própria
história.
Somos postos frente a frente com este
vigor através da composição majestosa de suas personagens e dos trejeitos
peculiarmente adornados que lhes foram concedidos, da profusão de cores nos
cenários percorridos, do encanto que paira em cada página permitindo sentir o
gosto da moqueca de Tieta ou do vatapá de Dona Flor, seja dentro de um ônibus
em movimento, seja no balanço da rede contemplando o mar.
Seu poderio literário conquista força com o
advento da televisão, onde eclodem imagem e som de cenas antes exclusivas do
imaginário, estreitando assim a ligação junto ao leitor, que agora se converte
em telespectador do livro outrora lido e com aqueles que previamente não
tiveram a oportunidade de entranhar-se nos textos escritos por Jorge.
Desde a primeira adaptação de “Gabriela,
cravo e canela” em novela com transmissão pela TV Tupi em 1961, que a Bahia de
Todos-os-Santos começa a se transformar na Bahia de todos os brasileiros. Estas
releituras realizadas para o formato não impresso mantiveram o cerne de apelo
popular das tramas propiciando deste modo a identificação dos que assistem as
mesmas.
Vale ressaltar também o papel das figuras
femininas nestas obras, uma vez que incorporadas em carne e osso conservaram a
essência fértil do chão explorado com os pés descalços e da aura apimentada de menina-mulher,
mistura de traquinagem e sensualidade.
Outro fator que corrobora na migração para a
teledramaturgia está em uma narrativa que mesmo fictícia aconchega o real, que
enaltece o exótico despindo preconceitos e une elementos que transcendem a
barreira do tempo. Ante tal fartura amadiana o público se curva.
O êxito televisivo da literatura de nosso
Imortal Amado confirma a maestria do homem que escreveu e viveu intensamente,
não se submetendo ao papel de simples observador. E o cacau nunca mais foi o
mesmo.
Maria Muller
texto escrito em resposta à pergunta "Por que a literatura de Jorge Amado faz sucesso também na televisão?"
texto escrito em resposta à pergunta "Por que a literatura de Jorge Amado faz sucesso também na televisão?"
